Em vésperas da festa de Natal, contemplamos o mistério da Encarnação de Deus e a relação que tem com a nossa vocação. É curioso que Mateus dá a José mais protagonismo nos relatos de infância que a Maria. No entanto José não é o protagonista. O verdadeiro protagonista é Deus, que atua em todos os acontecimentos graças ao seu Espírito.
Contudo o bom José está em crise. Não percebe o que se passa com Maria e não sabe qual é o seu papel, o que tem de fazer com ela. Não é capaz de descobrir a ação de Deus, oculta e silenciosa. Mas Deus não o abandona, porque José era “um homem justo”. O anjo do Senhor aparece a José num sonho e diz-lhe que a sua missão será a de colaborar, simplesmente colaborar, para que se cumpra a profecia, para que o “Deus connosco” se faça carne, se torne um de nós.
O nascimento milagroso, sem intervenção do homem, do Filho de Deus, coloca-nos a caminho para entender o mistério da graça. A presença de Deus na nossa vida e no nosso mundo é um gesto totalmente gratuito da parte de Deus. Eu não tenho de fazer nada, apenas tenho de estar ali, como José cuja tarefa não era outra senão a de dar um nome: o de Jesus, que significa “Deus salva”. Belíssimo trabalho, este o de José. Mais além de ter sido um simples carpinteiro José deveria ser recordado como aquele a quem lhe correspondia dar um nome ao Filho de Deus, dando com esse gesto início à presença salvífica do Reino de Deus. Fazem falta, ainda hoje, muitos outros como José que ao pronunciar o nome de Jesus tornem realidade o seu significado: Deus salva! Gente que seja, em definitivo, atualizadores da sua Encarnação.
Convém também recordar o contexto da primeira leitura. O rei Acaz ante o perigo que suponha o cerco a Jerusalém procurava uma aliança política com a Assíria, em vez de colocar a sua confiança em Yahveh. Acaz não tem fé sequer para pedir um sinal de Deus e disfarça a sua resposta com uma falsa devoção: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova».
No fundo Acaz já tinha tomado uma decisão que descartava a confiança em Deus. No entanto Deus promete um filho, e a sua promessa faz antever que os planos dos inimigos fracassaram e que a aliança que tinha feito com o seu povo se manterá de pé apesar da sua infidelidade. O filho da promessa é símbolo de vida, de renascimento, de vitória definitiva sobre o mal. É símbolo da perseverança de Deus, de um Deus que insiste em ser fiel connosco. E esta promessa de fidelidade cumpre-se totalmente em Jesus. Apesar das ocasiões em que procuramos, também, as nossas alianças e seguranças sem nos colocarmos confiadamente nas mãos de Deus, Ele continua a estar aí oferecendo-nos “um Filho”, ou seja, fecundidade, futuro, história, esperança…
O Senhor volta a chamar-nos, hoje e sempre, como a Paulo para ser “apóstolo, escolhidos para anunciar o Evangelho de Deus”. Porque não se trata de nos anunciarmos a nós próprios, ou de apregoar as nossas ideias, mas sim de proclamar que o “Emanuel” continua entre nós. Hoje voltamos a receber “este dom e esta missão: fazer que todos os gentios respondam à fé”.
Como vivo o mistério da Encarnação de Deus na minha vida? A que me chama?
Em que medida me sinto guiado e acompanhado pelo Espírito de Deus?
Qual a resposta quotidiana que dou ao projeto de vida que Deus tem para mim?
Que significa, para ti, “Deus salva” e “Deus connosco”?
“O trabalho que Deus realiza em nós raramente é aquele que nós esperamos. Quase sempre o Espírito Santo parece atuar de forma contrária à nossa”.