Nas cinzas do dia é possível o lume?
A Quaresma coincide com o irromper da primavera. Mais ou menos timidamente, a natureza parece vencer a letargia do inverno. Por todo o lado, avistamos sinais desse reflorir. É extraordinário pensar na vitalidade que leva os troncos despidos a acreditar que vale a pena voltar à estação das folhas e das flores! Aprendemos muito sobre a Vida Interior olhando, por exemplo, para as árvores. Gosto de pensar nelas recordando uma frase conhecida do designer italiano Bruno Munari: «Uma árvore é uma semente que cresce devagar e em silêncio.»
A Quaresma é um tempo simbólico, a começar pelo nome. Quaresma vem de Quarenta: 40 foram os anos que o Povo de Deus passou no deserto a preparar a sua entrada na Terra Prometida - Ex 16, 35; e Jesus esteve 40 dias preparando-se para a sua Missão - Lc 4, 1-13. Nós temos também agora os nossos quarenta dias em vista da Páscoa. Claramente este é um tempo para intensificarmos a nossa vivência, transformando este punhado de dias numa oportunidade da Graça.
É tão fácil cair no pessimismo ou então navegar no pragmatismo acrítico. A Quaresma vem para agitar as águas, questionar instalações, romper com derrotismos. «Pode um homem sendo velho nascer de novo?», perguntava Nicodemos. Jesus respondeu-lhe: «Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus... Não te admires por Eu te ter dito: "Vós tendes de nascer do Alto"» (Jo 3, 5-7). Só celebraremos com verdade a Páscoa de Jesus se aceitarmos o profundo e concreto desafio que ela lança à nossa vida.
Neste pôr-a-vida-em-processo-de-florescimento que a Quaresma significa, somos ajudados por três expressões do património espiritual cristão, três caminhos onde nos exercitamos:
1. A oração. A oração é a expressão da confiança que podemos ter em Deus. «Invoca-me, e Eu te responderei», diz Deus no Livro de Jeremias (33, 3). A oração atualiza a certeza de que somos ouvidos, acolhidos, abraçados. Como na parábola que Jesus conta, o Pai avista-nos, corre ao nosso encontro, abraça-nos e cobre-nos de beijos (Lc 15,20). A oração celebra essa intimidade. Na oração não ficamos apenas a olhar para Deus, mas o Espírito Santo ajuda-nos aí a que nos olhemos (a nós próprios e ao mundo!) com os olhos de Deus. Descobrimos assim que a nossa realidade histórica tem uma vocação transcendente.
2. O jejum. Vivemos triturados na digestão que o mundo faz de nós. Rapidamente o Ser fica relegado e substituído pela corrida ao Ter. Corremos de um lado para outro, reféns e instrumentos, mais do que autónomos e criativos. Ora o jejum (por exemplo, comer menos ou evitar o supérfluo, consumir menos, criticar menos, etc.) corresponde a um ato espiritual, pois amplia o campo da nossa liberdade. Sem darmos conta, são tantas as correntes que nos prendem e as dependências que nos diminuem! O jejum, o adotar um estilo mais frugal, cria novas disponibilidades, possibilita um melhor exercício do pensamento e do discernimento, melhora inclusive o sentido de humor...
3. Ao jejum está ligada a prática da esmola, que tem a sua modalidade mais autêntica na condivisão (embora esta se traduza em tantas formas possíveis). Lê-se no profeta Isaías: «O jejum que Eu quero não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços de servidão...? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm com que se vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?» (Is 58, 6-7). O jejum abre interiormente o nosso coração aos outros. A esmola testemunha-o no compromisso solidário por um mundo fraterno.
O tempo litúrgico da Quaresma tem início na Quarta-feira de Cinzas. Na missa desse dia há o rito de derramar sobre a cabeça dos fiéis o sinal das cinzas. E é daí que nasce a pergunta fundamental: «como tornar a cinza em lume»?
José Tolentino Mendonça