As leituras deste terceiro Domingo do Advento oferecem-nos uma reflexão acerca da nossa vocação, especialmente nos momentos de crise e escuridão. Se no passado Domingo refletíamos acerca do vazio, da monotonia e da brandura em que se pode tornar a nossa vida vocacional, agora encontramo-nos com a dramática crise sobre o sentido existencial.
Vivemos de certa maneira na mesma angústia de João Baptista. A sua pergunta é desconcertante: “És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?”. João está desorientado, até mesmo escandalizado, pois a questão fundamental procura uma resposta sobre a identidade de Jesus. “Quem é realmente Jesus?” É a pergunta que João se coloca ao constatar as diferenças entre a maneira de atuar de Jesus e aquilo que o próprio João tinha anunciado.
O desconcerto de João Baptista é também o meu quando descubro que a imagem que tenho de Deus não corresponde aquilo que Ele é verdadeiramente; quando vejo que os meus caminhos não são os seus; quando acreditava, esperava ou pensava que a minha experiência vocacional ia ser de uma maneira e redunda ser de outra; quando as minhas expetativas não se cumprem; quando vivo no meu corpo a “experiência da cruz”, quando sofro, também, com a angústia das “cruzes” de tantos pobres… Por fim acabamos por nos perguntar sobre a identidade daquele que me chamou um dia e por quem deixei tudo para o seguir. Valeu a pena semelhante esforço? Se pergunto por quem me chamou tenho de perguntar-me obrigatoriamente por mim mesmo. Quem é esse que me seduziu? Quem sou eu, que me deixei seduzir? A meta do nosso existir é conhecer Jesus e o sentido da nossa vocação.
Jesus deixa-nos hoje uma bem-aventurança que não está no sermão da montanha: “Bem-aventurado aquele que não se escandalizar comigo!”, sobretudo naqueles momentos em que esperamos um pouco de luz, uma resposta breve, um alento de consolo e nos parece respirar somente a escuridão, o silêncio e a solidão. Escandaliza-nos Jesus na cruz. Escandaliza-nos a sua misericórdia com os pecadores que sempre nos interroga. No entanto, as leituras de hoje estão cheias de palavras de ânimo que nos estimulam no meio da nossa crise vocacional. O apóstolo São Tiago convida-nos em primeiro lugar a “ser pacientes como o agricultor que aguarda o fruto”. E nessa paciência devemos permanecer firmes ante a certeza de que o Senhor está próximo. O profeta Isaías é ainda mais claro: “Fortalecei as mãos fatigadas e robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos corações perturbados: Tende coragem, não temais”. Quem não se sente renovado e animado ao escutar estas palavras? Por isso o profeta insiste em que permaneçamos alegres porque o Senhor vem ao nosso encontro para nos salvar.
Paciência, fortaleza e alegria, convertem-se em virtudes que, não sendo capitais, são boas companheiras no próprio processo vocacional. Que Deus é compassivo e misericordioso mostram-no os sinais messiânicos que "estamos a ver e a ouvir”: “os cegos veem e os coxos andam; os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem; os mortos ressuscitam e o Evangelho é anunciado aos pobres!”. Todos estamos chamados à alegria, à grandeza, à realização da nossa vocação de filhos de Deus.
Na minha vida, em que sentido me sinto cego, surdo, coxo, mudo, leproso, morto, pobre? Como é a minha oração nessas circunstâncias? Que aspetos da pessoa e do ensinamento de Jesus me custam a aceitar? Que posso fazer eu para que a mensagem de salvação e libertação de Jesus seja hoje compreendida? Para mim, quem é Jesus e que lugar ocupa na minha vida?
“Ao longo dos tempos espalhou-se erradamente no seio do povo cristão a opinião de que o chamamento direto e irresistível de Deus é a melhor vocação, a das “almas superiores”. Não é verdade. É muito mais fino, mais digno, poder dizer-lhe “não”, não saber claramente o que Ele espera de mim e, no entanto, lançar-se em seus braços, fiando-se d’Ele”.